terça-feira, janeiro 01, 2008


MANUEL MARIA MÚRIAS
….É SEMPRE BOM RECORDAR

Nada melhor para começar este ano de 2008 do que recordar o jornalista Manuel Maria Múrias e a sua luta pela verdadeira liberdade.

Relatos do 28 de Setembro de 1974
14 meses e 5 dias na prisãoTestemunho do jornalista Manuel Maria Múrias, mais tarde, director do jornal "A Rua", preso em 28 de Setembro de 1974 e libertado a 3 de Dezembro de 1975.
Passou pelas prisões de Caxias, Peniche e Penitenciária

O TESTEMUNHO DE MÚRIAS
Eu dormia a bom levar quando, pelas 5,30 horas da manhã de 28 de Setembro de 1974, os intelectuais do COPCON me foram buscar a minha casa em S. João do Estoril. Naquela triste e leda madrugada, empunhando uma lindíssimo mandado de captura e as respectivas espingardas-metralhadoras, um grupinho de militares comboiado pelo polícia de giro, fez-me levantar da cama e, de sopetão, meteu-me num carro paisano e conduziu-me para o então RAL
1. Os meus captores simpaticíssimos (um deles está agora em Custóias...) anunciaram a minha estarrecida que a operação da qual participavam se desenvolvia à escala nacional e que naquela noite, por todo o país, iriam malhar com os ossos na cadeia, muitos bispos e padres, muitos militares e civis, suspeitos, como eu, de pertencerem a uma associação de malfeitores.
Metido no carro particular, sabendo que vários civis (militantes do P.C. mascarados de militares) tinham andado pelas redondezas a prender presumíveis adversários políticos, passou-me pela cabeça que me iam dar um tiro. Rezei o Acto de Contrição, e aconcheguei-me tranquilo a passar o terço pelos dedos. O automóvel seguiu Marginal fora, caminho de Lisboa; foi várias vezes interceptado por eficientes barreirinhas populares e rapidamente chegou a Sacavém.
O dia despontava divertidíssimo. No ex-RAL 1 enfiaram-me numa enfermaria superlotada; antes, porém, alguém bem avisado foi dizendo, ao meu passar, de forma acintosamente audível, que eu era para limpar... Percebi na altura que não morreria nem de medo — nem de parto. O limpador em potência (soube-o depois pelas fotos dos jornais) era o Major eleito Diniz de Almeida...
Do RAL 1, onde permaneci umas horas a dormitar, embalaram-me numa ramona para o Reduto Norte do Forte de Caxias onde, logo no átrio, fui soezmente insultado por um anãozinho disfarçado de oficial de marinha. Durante sete longos meses habitei a prisão sinistra. Pelo 11 de Março, para acomodar novos hóspedes, passaram-me para Peniche, a ver o Mar. De Peniche, após poucas semanas enlouquecedoras, devolveram-me a Caxias, para um isolamento terapêutico. De Caxias, para atender à explosão demográfica da população prisional portuguesa, pespegaram comigo na Penitenciária onde vegetei porcamente de 25 de Maio a 3 de Dezembro de 1975. Neste dia, passado ao foro civil pelo qual ansiava, fui ouvido na Polícia Judiciária por um juiz formalíssimo, legalíssimo e educadíssimo e posto em liberdade pelas onze e meia da noite. Tinham passado 14 meses e cinco dias. Louvado seja Deus!
Enquanto estive preso perdi (concerteza por descuido meu...) amigos de trinta anos; achei muitos outros das melhores pessoas possíveis e encontrar: — pides, legionários, comunistas, marxistas-leninistas, socialistas, anarquistas, luaristas, monárquicos, republicanos, pobretanas, oficiais do exército e da armada — criminosos de delito comum. Diverti-me e sofri horrores. Joguei desabaladamente o bridge — a vingança dos estúpidos. Aprendi a cozinhar. Fui interrogado acerca de dez vezes. Deram-me encontrões. Apontaram-me pistolas. Uns garotelhos quaisquer ameaçaram-me com horrendas sevícias. Ri-me por dentro e por fora com tudo o que se passava: — se a liberdade e a democracia eram aquilo, eram exactamente o que eu imaginara em muitos anos de compassada meditação política.
Admirei gulosamente durante meses alguns raros espécimes de antropóides. Vi morrer homens por incúria, indiferença e covardia. Observei como pouco a pouco, uma pessoa se degrada psiquicamente até parecer um bicho. Eu próprio, a certa altura, possesso de neurose prisional, me rebolei pelo chão a gritar enraivecido, tomado de desespero. Tive inefáveis momentos de paz e tranquilidade. Em escuras noites de insónia e terror, voltei-me todo para mim e encontrei-me com Deus, vislumbrando ao longe reservas imensas de Fé, Esperança e Caridade.
Fiz greves de fome. Encarei a morte nos olhos espavoridos de quem me julgou a morrer. Amei apaixonadamente a vida, a minha mulher e os meus filhos. Li pachorrentamente Marcel Proust, inconmensurável teia de intrigas, merdices e gulodices que a pederastia institucionalizada consagrou universalmente. Readmirei Proudhon, Bakunine, Kropotkine e Max Stirner. Respassei o olho por cima de Marx. Chorei impotente a destruição da Pátria. Desprezei. Revoltei-me. Envergonhei-me desta minha biológica condição de português rectangularizado. Em pesadelos torvos o cortejo dos mortos deixados assassinar em África e na Oceânia, angolano e moçambicanos, presos comigo pelo único crime de quererem ser portugueses. Orgulhei-me deles. Os meus carcereiros deram-me tempo para reformular com pausa muitas ideias políticas.
Não perdi um dia. Mais — ganhei todos os que vivi. Não me acho derrotado: — vou continuar.(Publicado na Revista Resistência)


Umas breves notas:
Porque me lembrei de iniciar o ano com uma peça com este teor?
Não conheci pessoalmente o jornalista Manuel Maria Múrias nem sequer fui um leitor assíduo das suas peças jornalísticas. Mas, hoje, passados mais de 30 anos é importante recordar a luta deste, e de outros, portugueses de rija têmpera.
Que não nos sirva, apenas, para memória futura. Que nos sirva de memória para o presente. Porque muitos dos responsáveis por estas atrocidades são os mesmos que nos governam e em que votamos.
"Em quem votamos" , é uma força de expressão. Pelo menos no meu caso pessoal
Manuel Abrantes

Comentários:
Isso não é muito bom, politicamente, dar apoio a pessoas dessas - leia-se criminosos.
 
Criminoso ?????
Porquê ???
Por delito de opinião?
Crime por escrever o que pensa ?
Crime por ser contra as ocupações selvagens e dos que queriam conduzir este país para uma ditadura pró-soviética ?
Este é que foram os criminosos no periodo do PREC ?
Santa blasfémia.
 
Foi um Homem,com H.
Um abraço,
 
Vai ler esta nova versão, por favor. Aceitam-se críticas e opiniões. São mesmo benvindas.

http://coliseu-nero.blogspot.com/2008/01/2-verso-provisria-da-carta-de-princpios.html

Bom Ano de 2008, Cumprimentos.
 
É bom não esquecer, boa lembrança para reflexão neste início de um Novo Ano. Em nome da Liberdade!
 
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